quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Textos Classificados 2017 - 013 (N.º 569 - Ano IV)





O NEGÓCIO DA MOÇA





Há alguns anos, havia uma categoria de trabalhador nas fazendas daqui das Gerais, intitulada de Bobo de Fazenda. Normalmente tratava-se de homem com alguma deficiência ou solteirão que morava nas fazendas e fazia os trabalhos que os donos achavam-se muito “qualificados” para fazê-los ou que pensavam tratar-se de rotina desimportante, para as quais não compensasse pagar um diarista. O Bobo geralmente não era remunerado pelos seus trabalhos ou, quando remunerado, era bem abaixo do valor correto e justo. Alguma semelhança com a vida atual?


Toda Fazenda que se prezasse tinha por obrigação de ter o seu Bobo, algumas, até mais de um. Faziam gaiolas, alçapões, arapucas, balaios; cuidavam das galinhas poedeiras e chocadeiras, alimentavam porcos e cachorros; pegavam cavalos, varriam terreiros e fornos; carregavam água, lavava vasilhas, acendiam fogo; e, o mais importante, serviam de companhia para as donas de casa, as moças e as crianças em geral. Muitos eram maltratados, apanhavam, sofriam castigos e toda sorte de malvadezas dos fazendeiros, seus filhos e lacaios. Mas criavam uma certa identidade com a Fazenda, muitos deles sendo capazes até de morrer pelas causas do local e de seus donos.


Na Fazenda do avô da Duxa, moça donzela, amante da cachaça e da boa prosa, o Bobo era Cutelo. Dom Cutelo, o Filósofo, para ser mais exato e fazer justiça às peripécias do rapaz. Alto e magro, parecendo um caniço, cabeça pequenina e coração enorme, dado a bebedeiras e bravatas, arrotava valentia, sem contudo, fazer mal nem sequer a uma mosca ou formiga. Era inofensivo e fiel como um cãozinho de madame.


Certa feita, numa roda de truco e cachaçada, a moça donzela Duxa, contou-nos esta história do filósofo:


Lá pelo tempo do onça, quando era permitido aos candidatos fazerem festas regadas a chope, churrasco e forró, as campanhas políticas lá na roça eram animadas. Vinha gente da cidade, principalmente as FULANetes (que eram moças desfrutáveis que aderiam a um ou outro candidato) e, literalmente, o pau quebrava. Se não quebrasse, pelo menos vergava.


Bão, numa destas tais, o amigo Cutelo, deu de mão numa das “desfrutáveis”, loiríssima, vestida sumariamente e de trejeitos duvidosos. Mas para o filósofo era o céu. Chamou pra sofrer uma peça, ela foi. Deu “imbigada”, ela correspondeu. Chamou pra tomar uma “celveja”, ela foi. E, de repente, foi...


Meia hora depois, o povo se alvoroça e alguém grita:


-- Acuda gente quiu Cutelo descangota a moça.


Corro para ver o que era e encontro o nosso filósofo de socos e pontapés na loura. Puxo o amigo de lado e "passo o pito":


--Quêquéisso, Dom Cutelo? O senhor então bate em mulher agora? Desafasta! Toma tento!


No que o Filósofo, bufando de raiva, mas já na unha do povo, desabafa:


-- I num é pra mode batê, Dona Duxa? I num é? Magina a sinhora quieu tô cum ela lá no Beco do Binidito, de boa intenção, namorano filme, pensano inté pidi casamento. Cunversa vai, cunversa vem, passamão no cangotim dela e ela dexa. Passamão na barriguinha dela e ela dexa. Aí, já viu, né? Fiquei intusiasmado, quereno pruquê quereno. Quandeu levo a mão lá... Creeeeeeeeemdospade!!! Mari valeme!!! As coisa dela é maió que as minha, Dona Duxa!  É maió quias minha!


E arrematou, dona Duxa:


--Tadim, gente! Ô dó!


 Classificado para a antologia 1º Painel de Contos Premiados - Edição 2017 da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) - Rio de Janeiro (RJ), em 23/8/17.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Poemas Classificados 2017 - 053 (N.º 568 - Ano IV)





Apelo a Tânatos

Sob a Égide da Cruz
Zeus destronado já não mais pode
Provocar os vômitos de Cronos,
E o nosso destino é ser lentamente devorados!
...esperança não há!

Quisera a sorte de Diomedes
e ser estraçalhado nos dentes
Das putas devoradoras de homens,
Mas só me resta a lápide,
O cortejo e a perene condenação!
...salvação não há!

De águas estancadas, Lete não banha
E para as sujas sombras dos mortos
Somente o repaginado reino de Hades
Num inferno de fogo.
...esquecimento não há!

As algemadas Moiras não me tecem sequer um fio
E nos meus bolsos pobres


Não tilintam moedas para o barqueiro,
Reinam absolutos Momo e Oizus
E nosso único quinhão possível é zombaria e miséria...
...vida não há!

Classificado para a antologia 1º Painel de Poemas Premiados - Edição 2017 - da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) - Rio de Janeiro (RJ), em 23/8/17.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Poemas Classificados 2017 - 052 (N.º 567 - Ano IV)




Ceifador



O espantalho do outro lado do espelho

enlaça-me em abraços de feno

e bailamos sobre cabeças de gelo

na Stalingrado arrasada.

Meu cérebro de capim

capta em antenas de vespas

vestais de Atenas

em pensamentos de flor e mel.



Minhas más intenções balouçam

como folhas no vale das pirâmides

a conceber cartadas de amor.

Num horizonte de pedra e pólen

o orvalho matinal prenuncia

dias de sol, doiradas farturas.



Saldamos as dívidas mútuas

no sal de Ló, à entrada de Gomorra,

para que limpos adentremos o submundo

num ajuste final com Hades

que nos permita vermos no olho

das tecelãs do Olimpo.

E não nos faltem amor em grãos

espigas de paz, na farta seara de bênçãos

das estações que se avizinham.



Antes que as valquírias nos colham,

aos pedaços, do interior de Cronos.


 Classificado para a Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 153;da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) - Rio de Janeiro (RJ), em 23/8/17.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Textos Publicados 2017 - 049 (N.º 566 - Ano IV)


Mariposa. Foto: Francisco Ferreira.

O Curriculum



Um amigo nosso estava atravessando uma fase de extrema pindaíba, "sem dinheiro nem pra andar a pé", ou conforme ele mesmo dizia: “sem uma prata no borso pra cerca um padeiro”, quando chega na cidade uma construtora, que montou escritório com um engenheiro magricela e um auxiliar de escritório reumático, recrutando empregados para as obras de uma represa na região.  Não deu outra: lá foi o amigo se inscrever como orêia seca. Passaram-se três dias, nem o amigo e nem notícias do amigo, meu avô que era seu padrinho de batismo, mandou saber dele na cidade e veio a bomba: o afilhado havia sido preso por agressão e desacato à autoridade. O vô correu lá para tentar remediar a situação do menino. Depois de contratado advogado, fiança paga, um sabão do delegado e rapaz solto, era hora da reprimenda, de "inzemprá" o malfeitor. Disse:

− Bunito hem, seu porcaria, fazendo bagunça, sendo preso e talecoisa e coisaetale, né?

No que o menino respondeu:

− Meu padrim, inté o sinhor. Inté o senhor fazia o mesmo... Fui cunversá c'o tar de genhero, mor de pidi o imprego e ele fartô cum respeito cumigo. Tasquei nele a mão nas fuça!

− Mas o que foi que ele fez de tão grave?

− Magina o sinhor, quel'óia preu, um home casado, pai de famía, aponta pro culega deslá e fala: cê vai ali e dá o seu cu rico pro rapaz. Quebrei a cara dos doise!

O vô já em tempo de explodir de rir, mas se contendo para demonstrar zanga e autoridade pergunta:

− E o policial porque você ficou brabo com ele também?

Responde espumando, o afilhado:

− Essé otro, essé otro! Quando falei da farta de respeito, me gozô. Disse: pro quê cocê num deu? Aí eu mandei ele a pedra noventa.



*inzemprá – dar o exemplo

*mandar à pedra noventa – xingar a mãe

*orêia seca – servente

Publicação em minha coluna FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 21/8/17.

sábado, 26 de agosto de 2017

Pílulas de Cultura 2017 - 001 (N.º 564 - Ano IV)



Publicação de estreia em minha coluna PÍLULAS DE CULTURA no jornal FALACMD – Ano X – N.º 33 – agosto/2017 - pág. 2, em 17/8/17.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Resenhas 2017 - 07 (N.º 562 - AnoIV)




Resenha – Corrente do Mal (It Follows, em inglês)

Gênero: Terror / Suspense / Mistério

Lançamento: 27/8/15

Lançamento em DVD: 18/11/15

Duração: 1h40’

Nacionalidade: EUA

Direção: David Robert Mitchell

Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe (Refém da Paixão e Guest), Daniel Zovatto, Keir Gilchrist, Caitin Burt, Aldante Foster, Bailey Spry, Christopher Hohman, Debbie Williams, Heather Fairbanks, Jake Weary, Lili Sepe, Linda Boston, Olivia Luccardi, Rich Vreeland, Ruby Harris


Jay (Maika Monroe), uma adolescente do subúrbio tranquilo, conhece o misterioso Hugh/Jeff Redmond (Jake Weary) e passam a se encontrar até que, após a primeira relação sexual, o rapaz a sequestra e a leva para uma construção abandonada onde lhe conta que é portador de uma maldição e que a contaminou com esta força sobrenatural. Ela terá de se livrar da “coisa” que a persegue incessantemente. Para isto ela contará com a ajuda dos amigos Paul – apaixonado por ela desde a infância -, Greg e de sua irmã Kelly. O alerta de Hill é: “Nunca vá a um lugar que não tenha mais de uma saída, a coisa é lenta mas não é idiota.”

O filme me remete a alegoria das DST, a contaminação após a relação sexual e a possibilidade de infectar outras pessoas pela mesma via, também pode se fazer uma alegoria a um possível remorso pela perda da virgindade, baseado na moral judaico-cristã do pecado (algo que eu acho pouco provável nos dias atuais, mas que já acometeu muitas jovens de algumas décadas passadas, numa época em que as famílias não discutiam sexualidade, tratando o assunto como tabu. Sobretudo naquelas mais tradicionais e religiosas). E ainda há o questionamento: se você sabe que tem algo maligno de que, para se livrar, precise passá-lo adiante, a quem você passaria? A um desconhecido que nunca lhe fez nada, a um desafeto ou a alguém que lhe ama e que se propõe a lhe ajudar, mesmo sabendo dos riscos e consequências?

Ganhou os prêmios de Melhor Filme e Roteiro no Austin Fantastic Fest 2014, dedicado ao cinema fantástico e foi selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes 2014, recebendo muitos elogios do público e da crítica. As críticas que encontrei são variadas, vão desde aqueles que adoraram o filme, àqueles que o odiaram. Não é um filme revolucionário mas está longe de ser ruim. Tem uma trama interessante, envolvente e que nos prende do início ao fim. Não há cenas de mutilação e sangue, o terror é gerado pela sensação de perseguição constante e exposição a um perigo que só a personagem central é capaz de enxergar. Eu recomendo! 


 Publicação de resenha para o filme CORRENTE DO MAL no blog DARK BOOKS de Pelotas (RS), em 15/8/17.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Poemas Publicados 2017 - 051 e 052 e Certificados 2017 - 008 (N.º 561 - Ano IV)



VII COLETÂNEA SÉCULO XXI – PoeArt Editora – Volta Redonda (RJ) – Organização: JEAN CARLOS GOMES – pag. 25, com os poemas RURALIZAÇÃO e LINHA DE PRODUÇÃO, em 15/8/17.


Certificado pela classificação na VII SELETIVA NACIONAL DE POESIA 2017 da PoeArt Editora – Volta Redonda (RJ), em 15/8/17.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Textos Publicados 2017 - 048 (N.º 560 - Ano IV)


Flores Silvestres. Foto: Francisco Ferreira.

Maledicências



Há mais de quarenta anos atrás existia em nossa região duas formas de comunicação sui generis que eram o Pasquim (que as pessoas diziam Pisquim) e o Testamento do Judas – a deixa do Juda -. Eram textos de humor em quadras ou sextilhas que normalmente ressaltavam características negativas das pessoas em foco ou relatando algum fato engraçado ou de denodo da vida dos mesmos. O Pasquim era muito usado nas campanhas eleitorais para menosprezar os candidatos adversários ou desmoralizar seus companheiros mais próximos. Sempre eram escritos pelos desafetos daqueles e tratava-se de textos anônimos, embora em muitos casos, sabia-se quem os escrevia. Há notórios autores de pasquim que por questões de não querer gerar polêmicas com eles ou seus familiares, não vou declinar seus nomes. Mas sempre houve pérolas e quadras engraçadíssimas, como a seguinte:

“Chamei fulana de rato,

Fulana nem se importou.

Chamei o rato de Fulana

E o rato se matou”

Eram deixados em locais de grande circulação e passavam de mão em mão até chegar à pessoa retratada.

No caso do Testamento do Judas o mesmo era lido antes da famigerada Malhação do Judas, nos sábados de Aleluias, prática que foi abandonada quando se tomou consciência de que era um ato de incentivo à violência e o ato de se fazer justiça com as próprias mãos, além de que qualquer crime, depois de quase dois mil anos, já estaria prescrito e com sua pena cumprida. Gerava sempre muita expectativa e alguma confusão com os valentes de plantão que diziam: “Se ler esta deixa para mim, eu mato e faço e aconteço!”, já que sempre se faziam spoilers dos textos. E, normalmente, neste caso se conheciam o autor ou autores. Algumas, com mais de quarenta anos, de que ainda me lembro:

“O Seu Fulano de tal,

por não ter o que fazer,

assentou um alambique,

sem ter cana para moer,

vai moendo tiririca

até a cana crescer”.

(Que ressalta o caso de um fazendeiro que construiu um alambique antes de plantar as canas).

 “Hoje eu vou pro inferno,

amanhã vou pras profundas,

levo meu compadre fulano

com a trouxa na cacunda!”

(Sobre um amigo nosso que não dispensava uma “capanga” de lona onde quer que fosse.)

 “Seu Fulano de tal,

vermelho que nem pó de urucum,

deixo a minha caveira

para consoar o seu jejum”.

(Falando de um outro amigo solteirão e que segundo consta vivia em completo celibato involuntário).

E, dessa forma, nosso povo se divertia e falava mal da vida dos outros mas com muito bom humor e poesia. Assim como desejo que seja nossa semana. 

Publicação em minha coluna fixa FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 14/8/17.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Poemas Classificados 2017 - 051 (N.º 559 - Ano IV)


Foto: MVBuosi.

Matalotagem



Foi o que trouxe do mato

quando vim me cidadanizar:

um quicé cego, do cabo quebrado

e três juras de morte mal matadas;

uma broxa de sapé, saco de tabatinga rosa

e três paredes por repintar.

Meio litro de água benta

três assombrações exorcizadas;

um naco de picumã

nas três feridas saradas.

Um alqueire de mandioca puba

quarta e meia de farinha torrada;

meia dúzia de ovos goros

de três galinhas ninhadas.

Um quinau de azeite bento

das três perebas curadas;

uma binga Vospic sem fluido

e três bitucas apagadas.



O coração, pelo meio, e a alma

de saudades encharcada.

Classificado para a II Antologia POESIA PAU BRASIL - Organização: ANTONIO CABRAL FILHO - Rio de Janeiro (RJ), em 14/8/17.

domingo, 20 de agosto de 2017

Trovas Classificadas em Concursos Oficiais da UBT 2017 - 04 e 05 e Trovas Publicadas 2017 - 07 e 08 (N.º 558 - Ano IV)


Fotos: Arlindo Tadeu Hagen.

Trovas publicadas na antologia MEUS IRMÃOS OS TROVADORES, vol. III – Humor – Organização: DOMITILA BELTRAME – UBTN (União Brasileira dos Trovadores Nacional), em 12/8/'7.


sábado, 19 de agosto de 2017

Textos Classificados 2017 - 011 e 012 (N.º 557 - Ano IV)


Flores de beijo. Foto: Francisco Ferreira.


Mão Boba

Enquanto um segurava o ponteiro, o outro batia com a marreta. Confiança e equilíbrio faziam com que, em trinta anos quebrando pedras todos os dias, jamais errassem uma marretada sequer. Naquela manhã, quando João se lembrou das mãos de Zeca nas ancas de Maria, titubeou... e arrebentou-lhe o crânio.



Amor Filial
Ao ver na TV o moço recebendo, das mãos do governador, medalha pelos relevantes serviços prestados em prol da qualidade de vida na terceira idade, o senhor que não via o filho há três anos, chama os companheiros do asilo e diz com lágrimas nos olhos:

− Venham ver como o meu filho é bom!

Classificado em 18º e 21º lugares na I Semana do IV PRÊMIO ESCAMBANAUTAS DE MICROCONTOS, em 8/8/17.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Textos Publicados 2017 - 048 (N.º 556 - Ano IV)

Flores Silvestres. Foto: Francisco Ferreira.

Progresso???



Já de uns vinte ou vinte cinco anos que tenho a crescente sensação de que não estava e nem estou preparado para este mundo novo. Tão admirável, quanto difícil. Nasci e cresci em um local e época muito distintos do que vivemos hoje. Lembro-me da minha cidadezinha pacata, de uma vida que se poderia dizer até modorrenta e que, na afoiteza da juventude, achávamos enfadonha e, muitas vezes naquela época, ansiamos pelo progresso e novidades que nos invadiram recentemente. Como estávamos “enganados com a cor da chita”.

Era uma cidade pequena, com problemas de cidade pequena: raríssimas oportunidades de emprego ou estudos, provocando a debandada da juventude em busca de futuro em centros maiores; os abnegados que ficavam tinham de se contentar com o subemprego, informalidade ou o serviço público – sempre muito concorrido e disponível apenas para os sobrenomes tradicionais ou aos “amigos do rei”-, o que os obrigava a “ler na cartilha” de prefeitos, vereadores e seus anexos e “andar nos bolsos” daqueles que detinham o poder. Mas havia sossego e paz, pão em todas as mesas e alguma diversão. Nossas ruas, quase vazias, nos serviam de quadras para o queimado, as pipas, a bolinha de gude, o esconde-esconde, o polícia e ladrão – incrível como a gente sempre queria ser ladrão, mesmo que, hoje, a grande maioria seja honesta e, de nossa turma, tenham saído policiais, empresários, juízes, desembargadores e até bispo –. Uns poucos se “acostumaram na fantasia” e viraram políticos.

Hoje, o progresso chegou com apetite e avidez, a cidade triplicou de tamanho – embora haja um fenômeno que ninguém explica: o crescimento físico é notório e em ritmo alucinante de PG, enquanto a população cresce em PA -. O movimento de carros, é assustador, sobretudo para uma cidade que não se preparou para absorvê-lo e a infraestrutura é precária – apesar dos avanços -; há diversidade de oferta de empregos, destarte tenhamos de disputá-los “no tapa” com a gente de outros sotaques, normalmente mais especializada e experiente do que a nossa; há sempre um curso técnico, de aprendizagem, capacitação ou habilitação. Centenas de novas formas de lazer e entretenimento. Enfim, a pequena moça provinciana assumiu ares de dama cosmopolita.

Mas, conforme vovó já dizia: “não há perfeito sem defeito”. O índice de crimes violentos, consumo e tráfico de entorpecentes tornou-se uma calamidade, ceifando jovens vidas quase semanalmente, as nossas casas que se acostumaram a viver de portas abertas estão tornando-se fortalezas e cárceres e neles vivemos presos, amedrontados, ansiosos, adoecidos. Para quem tem de sair de casa à noite para trabalhar, acompanhar alguém ou mesmo em busca de lazer corre-se sempre o risco de ser assaltado, extorquido, agredido. Antes se andava despreocupado pelas ruas, o perigo máximo que se corria era tropeçar num despacho ou cruzar com um cachorro louco.

Há três anos que busco minha filha no ponto de ônibus, por volta de meia noite, vinda da faculdade. No início levava celular, carteira e o pouco dinheiro que tinha, agora coloco cinco reais e o RG nos bolsos e vou torcendo e pedindo ao Universo que me mantenha ileso nesta cidade pequena com problemas de cidade grande.

Boa semana a todos. 


Publicação em minha coluna semanal FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS (Rio de Janeiro –RJ), em 7/8/17.