terça-feira, 20 de junho de 2017

Textos Publicados 2017 - 38 (N.º 496 - Ano III)


                                                  
Flor Silvestre. Foto: Francisco Ferreira.


Ostracismo



Clístenes, considerado o Pai da Democracia, criou em Atenas no século V a. C., a punição por ostracismo que tratava-se do banimento ou deportação por dez anos de cidadãos, normalmente políticos, que atentavam contra a Liberdade Pública.  Nada mais era do que prover os cidadãos com um pedaço de cerâmica, chamado óstraco, onde se escrevia o nome do cidadão/político para quem se queria o ostracismo. Os arcontes apuravam a quantidade de óstracos e, em passando de seis mil, apontava o vencedor. Aquele que tivesse mais votos iria para o ostracismo.

Embora aqui no Brasil, de quatro em quatro anos, tenhamos a oportunidade de colocar políticos no ostracismo, a nossa tendência é de fazer exatamente o contrário: mantê-los incólume. Passamos quatro anos execrando-os em redes sociais, nas conversas de boteco e esquinas, mas por desinteresse, preguiça de pensar ou favorecimentos ilícitos, eternizamo-los no poder, fazendo o caminho inverso. É muito comum vermos eleitores andarem feito verdadeiros outdoors humanos durante toda a campanha eleitoral, portando propagandas de candidatos, sobretudo para o legislativo, mas que no momento da posse destes mesmos candidatos, não se lembram mais em quem votaram. E a bagunça se generaliza.

Os nossos políticos, mui sabidamente e capitaneados pela grande mídia, perpetuam aquela máxima de que “todo político é igual”. Com isto favorecem aqueles que são verdadeiramente iguais e cujo interesse é apenas pessoal ou de seu grupo. E, quando vimos os fenômenos tiriricas, cuja campanha foi “pior do que está não fica”, serem eleitos com grande margem de votos, temos a certeza de que o brasileiro dá mais valor ao resultado dos jogos de seu time, do que ao presente e futuro da Nação. E todos nós sabemos que, a cada ano que passa, fica muito pior, com o nosso sistema eleitoral favorecendo este tipo de conduta.

Com a desgovernabilidade que se encontra a nossa Nação, neste caos político e institucional que só se aprofunda, esta é uma boa oportunidade de refletir sobre nossa postura diante das campanhas eleitorais, dos partidos, das correntes ideológicas e dos nomes que iremos mandar para o ostracismo ou para o poder, nas eleições do ano que vem. Confesso que estou completamente desesperançado com o futuro do Brasil, em meio a esta desordem generalizada, a corrupção em todos os poderes e em todas as esferas da administração pública. Mas me pauto nas palavras do meu avô paterno quando dizia: “o que está muito ruim, está próximo de melhorar” e, pelo que se percebe, não tem como piorar mais. Apesar do Tiririca.

Nós sabemos muito bem que não existem políticos santos, com as mãos completamente limpas no Brasil, que não existem partidos corretos e que os conchavos são muitos e que jamais saberemos da total complexidade deles; que o radicalismo de ideologias foi disseminado por pessoas que têm interesse em que se divida a Nação em duas facções que se digladiam diuturnamente e que, quanto mais ferrenha for esta contenda, melhor para estes grupos; que têm ideologias que beneficiam uma parcela da população em prejuízo à outra e a reciproca também é verdadeira. Sabemos perfeitamente que, em voga estão os interesses financeiros de grupos muito poderosos. Cabe-nos a árdua tarefa de pensar, refletir, esmiuçar os livros de história e a memória de pessoas que viveram as diversas nuanças da política e administração nacional para que possamos formar nosso próprio juízo e não sucumbirmos a opinião da mídia e nem ao lugar comum. Salvadores da Pátria não existem, políticos sem interesses pessoais e de seus grupos muito menos. O que temos de avaliar é até que ponto este ou aquele político, desta ou daquela corrente ideológica será melhor, primeiro para a Nação, depois para o nosso grupo e, em último lugar, a nós, enquanto indivíduos.

Boa semana a todos, com um “cadinho” mais de esperança.


Publicação em minha coluna FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 19/6/17.

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