domingo, 4 de junho de 2017

Poemas Publicados 2017 - 026 (N.º 482 - Ano III)



Sertão e Assombração

Sertão para ser sertão
tem de ter assombração.

À luz tremeluzente da lamparina
o vestido de chita pendurado
anima fantasmas nas paredes
e horrorizam meus olhos miúdos
de menino medroso:
¬−Mãe, tem sombração!
As galhas da gameleira
gemem o choro de Negro-Velho
firmando ponto à meia-noite
banzo, chibatas e saudades...
Arrastando suas correntes
na procura do ouro enterrado
aos olhos do patrão!
No mourão da porteira, o curiango avisa:
−Amanhã eu vou!
Agourando a sina da gente.
Nas pedras à beira do curral
a mula-sem-cabeça arrasta os cascos ferrados
em movimentos fantasmagóricos
de virgem namorada de padre.
No chiqueiro, o lobisomem
misturando-se aos porcos, rói o coxo vazio
com dentes do cujo, de coisa-ruim.
Nas cozinhas o saci assopra as saias de Sinhá
salga a comida e ainda cisma
de fazer traquinagens no cabelo da negrinha, Minha Fulô,
primeiro bem-querer de menino da roça.
Nas encruzilhadas e bocas da mata,
passeiam porcas de pintainhos e galinhas de leitões,
(castigo de mulher da vida)
e outras avantesmas de menor grau.


Sertão de luz elétrica, automóvel e parabólica
não tem sertão, é periferia, zona rural!
Pois para ser sertão, à vera,
sertão tem de ter assombração!

Poema publicado na seção POESIA DA SEMANA no blog ENCHENDO ESTANTES, através da SELEÇÃO PERMANENTE, em 28/5/17.


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