segunda-feira, 5 de junho de 2017

Textos Publicados 2017 - 34 (N.º 483 - Ano III)

Louva Deus. Foto: Francisco Ferreira.

Da Capanga da Velha Mandraqueira



Dos povos que nos formaram herdamos um amplo sincretismo religioso, cada um com suas práticas, tradições e pajés de diversas denominações. Nossa cultura religiosa está repleta de benzedeiras, rezadeiras, curandeiros que tratavam de males físicos e espirituais com ervas, beberagens, rezas "bravas", mandingas e simpatias (rituais para afastarem certos males - quebrantos - com emprego de rezas, drogas, ervas, bentinhos, patuás e afins). Sempre tive fascínio e interesse por este universo popular de fé e magia.
Mas com o desenvolvimento, popularização e franco acesso à medicina institucional, a melhoria na escolaridade e o êxodo rural vem diminuindo e se extinguindo o interesse das novas gerações pelas práticas de nossos avós. Vão desaparecendo nossos xamãs e com eles sua cultura milenar de cura. No interior ainda restam alguns abnegados mas sem a preocupação de registrar e imortalizar seus conhecimentos e práticas. Há também a crença de que em se iniciando um novo benzedor, a rezadeira perde seu dom e poder. Consequentemente perdem-se as tradições sem novos Iniciados.
Há uma história de família que diz que a minha tetravó materna era "mandraqueira" (feiticeira) e não se separava de sua capanga (bolsa de pano à tiracolo) onde, segundo reza a lenda, mantinha resguardados seus patuás, teréns, feitiços e conhecimentos. Diz-se ainda que, na véspera da sua morte, confiou-os (capanga e mandingas) ao meu avô materno que, no entanto, não os repassou a ninguém, levando-os consigo para a eternidade. O título desta crôniqueta é uma homenagem à minha parenta a quem gostaria imensamente de conhecer e ser aprendiz, mas que as diferenças de gerações não mo permitiu.
− Bença, vó!
Para resgatar esta tradição em janeiro de 2015 criei um blog com o título DA CAPANGA DA VELHA MANDRAQUEIRA, que está desatualizado devido a outros interesses e afazeres. E para que não pensem que eu só fico de bla´-blá-blá, vou lhes apresentar três simpatas das mais eficazes:
Simpatia para eliminar as gordurinhas indesejáveis da barriga:
Na noite de quinta para sexta-feira dormir num quarto de porta de três tábuas. Ao ir deitar-se, levar consigo um copo de água pura e, na manhã seguinte, antes de abrir a porta, tomar aquela água e bater com a barriga em cada tábua da porta, fazendo a seguinte imprecação:
− Porta, portinha, dá-me tua barriga que lhe dou a minha!"
Repetir o ritual por mais duas sextas-feiras.

Simpatia para crescer o cabelo:

Em noites de lua crescente, assim que a lua despontar no horizonte, fazer a imprecação:

"A benção dindinha lua
que Deus lhe dê formosura.
Faça com que meu cabelo
cresça até à cintura!"

Simpatia para curar aguamento:

Uma das crendices mais enraizadas de nossa cultura é o aguamento. Diz-se que se uma criança, até os sete anos, ver alguém comendo algo e sentir vontade de comer, se não for satisfeito este desejo, ela "água", "agôa" ou "sente". Os sintomas em geral são: a criança se entristece, emagrece, baba, o cabelo perde o viço e a nuca afunda. Se não for "benzida" ou não se fizer simpatias para curar o aguamento, a criança pode até morrer. Uma simpatia infalível para curar "aguamento" é a seguinte:
Numa sexta-feira ir à casa de uma pessoa chamada Maria, levando consigo a criança com o "incômodo" e pedir assim:

− Dona Maria, me dá um tiquinho de comida, pelo amor de Deus!

E dar a criança para comer. Repete-se em mais duas sextas feiras.

Obs.: Aguamento - Doença dos animais domésticos que lhes tolhe o uso das pernas e que consiste na inflamação do tecido reticular do pé, como consequência de excesso de trabalho ou resfriamento.

Bras. Doença que, na crença popular, ataca as crianças impossibilitadas de comer o que mais lhes apetece.

Boa semana a todos e um país de justiça e democracia.

Crônica publicada em minha coluna fixa FIEL DA BALANÇA do blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ) em 29/5/17.


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